Reportagem:
O HOTEL QUE ALCANÇA A ESTRADA

    Quando Flavio Melo, jovem e arriscado proprietário do Exploranter, um hotel sobre rodas, prometeu me mostrar, em uma de suas excursões, um "Brasil desconhecido", ele não estava brincando. Ao final do primeiro dia, nós tínhamos comido formigas fritas crocantes, visitado masmorras de escravos numa plantação de café, sido apanhados por um carro funerário com a luz e sirene piscando e ouvido notícias de vila contadas através de autofalantes no campanário da igreja.
    O caminhão-trailer Scania de 25 toneladas que completa o saguão do Exploranter, a cozinha e 28 beliches nos quartos de dormir podem chegar a lugares do Brasil que ninguém conhece. Flavio me disse isso um mês atrás, em Outubro, quando ele apresentou sua pequena companhia de 04 membros na feira de esportes e aventuras em São Paulo. "Nós somos a antítese do lugar pasteurizado", ele concluiu.
Eu gostava da ideia de acordar no meio de lugar nenhum, tomar café da manhã na clareira de uma floresta ou contemplar a natureza.
    Era o primeiro de cinco dias de viagem do Exploranter pela Estrada Real do Brasil ou Rota Real, a qual, nos séculos 18 e 19, era percorrida por comboios de mulas carregando sacos de ouro das minas de Minas Gerais para os portos de Parati e do Rio de Janeiro e de lá para a corte portuguesa em Lisboa. O Exploranter estava a caminho de São Paulo, mas eu iria me juntar a eles alguns dias depois em Silveiras, iniciando ao norte em direçâo às cidades históricas de Ouro Preto e Tiradentes. Uma viagem do Exploranter pode durar de três dias a três semanas, dependendo do grupo e do itinerário.
    Cinco cavaleiros e suas esposas estavam a bordo - todos brasileiros, como a maioria dos clientes do Exploranter. Os cavaleiros podiam cavalgar nas trilhas das montanhas que atravessam o asfalto e através das campinas e campos. As esposas observavam a estrada e a paisagem com relativo conforto do convés superior do Scania mobiliado como um carro de estrada de ferro com bancos reclináveis e mesas. Eu também optei pelo convés superior. Parecia um ônibus Greyhound, embora unT pouco irregular. A vista que rodeia a magnífica paisagem verde e montanhosa de Minas era dominante, e Flavio, com 33 anos e falando em inglês, divertiu a todos com contos e viagens anteriores e uma seleção interessante de música ambiente. No vagão principal, o qual Flavio chama de Romeo, o equipamento da cozinha é guardado embaixo do deck do passageiro; as áreas de dormir e os três banheiros estão no trailer atrás, conhecido com Julieta.
    Silveiras é uma pequena cidade na fronteira entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, mais ou menos a quatro horas de São Paulo. Eu encontrei o grupo com um historiador local, OCÍLIO FERRAZ, que os estava entretendo com a história dos tropeiros - condutores de mulas cuja carga uma vez fez de João V de Portugal um dos monarcas mais ricos do mundo.
    Depois de contar histórias das batalhas dos condutores de mulas com bandidos, tribos indígenas e animais selvagens, o Sr. Ferraz nos convidou para irmos até Casarão Tropeiro, uma rústica casa-museu, para mostrar um pouco da substanciosa comida tropeira - guisado de carne salgado, costeletas de porco, arroz com açafrão, feijão preto e quiabo - tudo cozido em fogão a lenha no fundo do pátio, onde os tropeiros costumam amarrar suas mula durante a noite.
    A comida estava excelente, mas deve-se tomar cuidado com as calorias. A iguaria final era içá, formigas vermelhas, apanhadas no local, fritas em óleo e farinha de mandioca até ficarem crocantes. O chef, nos assegurou que eram saborosas. "Como amendoim", ele disse, sorrindo. Eu mastiguei, fiz careta e pedi para discordar. De volta ao hotel, fui interrompido para ouvir as ideias do cozinheiro para o menu dos próximos dias, incluindo comida marroquina e italiana.
    A noção de Flavio sobre o Exploranter era inspirada nas expedições de caminhão via terrestre que levaram turistas a aventuras em safáris pela África por décadas. Uma viagem desse tipo a bordo do Exploranter custa por volta de R$ 130,00 ($40) por dia por pessoa, viajando em um grupo de 20 pessoas.
Espera-se que os passageiros ajudem o cozinheiro, limpem a mesa e lavem a louça. Por um extra de R$ 70,00 (US$20) por dia, você pode optar por um "serviço completo", isto é, um grupo de cinco viajará em conjunto para mimar seu grupo e terem certeza de que suas mãos não terão contato com detergente. (Por sorte, eu optei pela viagem mais cara).
    Depois de termos percorridos algumas milhas, um bizarro carro funerário cor cinza com a luz do teto piscando e a sirene gemendo, passou por nós ventando. Meia hora depois, paramos em uma pequena cidade chamada Santa Rita, onde as notícias locais estavam sendo transmitidas por autofalantes no alto da torre da igreja da paróquia. Incluía não só a morte de um cidadão, mas também uma dança local e outras informações cruciais aos moradores, lidas pelo capelão que introduziu seu programa de rádio com uma "Ave Maria".
    Nós também paramos rapidamente para excursionar pela Fazenda Santa Clara, fora da cidade, uma plantação que diz ter tido a maior casa da fazenda no Brasil. Visitamos salões dilapidados, cozinhas e quartos pertencentes à Família Onório. Eles compraram o lugar em 1924 de seus donos originais, comerciantes de escravos que certa vez mantiveram 2.400 humanos em quartos subterrâneos e anexos.
A 100 milhas, próximas de nosso destino, estava Ouro Preto, capital padrão de Minas e uma jóia da arquitetura barroca. Para percorrer a distância de 880 milhas entre Ouro Preto e Rio de Janeiro eram 25 dias. O Exploranter realiza esta viagem em três ou sete dias, dependendo do itinerário que os passageiros queiram.
    Também fomos visitar Tiradentes, magnificamente restaurada, em grande parte pêlos proprietários das casas, provenientes do Rio. A cidade era chamada pelo Tenente Tiradentes, nome de guerra de José da Silva Xavier, a primeira cidade brasileira a planejar uma insurreição contra a coroa portuguesa. Lá, esperando ser descoberto, estava Tragaluz, um aconchegante café e loja que serve comida internacional e não formiga vermelha.
    Depois de termos passado a noite em Tiradentes, o grupo chegou em Ouro Preto com sua grande quantidade de igrejas barrocas, o requintado Museu do Onório e uma singular casa de ópera datada de 1769.
Planejava voltar a São Paulo em um Land Rover, mas devo admitir que não teria conhecido amostras desse Brasil, pagando um preço tão baixo, se estivesse em uma excursão luxuosa.
  
Informações aos visitantes
Planejando a viagem
    Cidadãos americanos precisam do vista de turista ($100(; entrar em contato com o Consulado Geral do Brasil, situado à Avenida das Américas, 1185, Nova York, N.Y. 10036; telefone (917) 777.7777, fax (212) 827.0225; www.brazilny.orq.
    Para algumas regiões é aconselhável tomar comprimidos contra malária; os detalhes estão no site da Web dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças;
www.cdc.gov/travel/tropsam.htm.
    Muitos itinerários do Exploranter começam e terminam em São Paulo. As companhias aéreas American Airlines, Continental, Delta, United e Varig voam de Nova York para São Paulo.
    O endereço do Exploranter é Rua Joaquim Antunes, 232, São Paulo-SP, 05415-000, Brasil; telefone (55-11) 3085-2011; infotajexploranter.com. O site da Web, www. exploranter. com. em português, tem fotos e vídeo.
Itinerários que operam durante o ano incluem excursão de 16 dias pelo Brasil (São Paulo para Valença em Minas Gerais pelo Exploranter, para o Rio de ônibus ou avião para o norte), período de 06 a 21 de Abril - US$ 1,485 por pessoa. Uma viagem pelo sul do Brasil, de 27 de Abril a 03 de Maio, começando em Porto Alegre e terminando em São Paulo; US$ 220 com meia-pensão.
    Os preços variam de US$40 a US$60 por dia incluindo refeições, a menos que seja fixado o contrário, dependendo do número de empregados; refeições extras no restaurante. Grupos de 10 ou mais poder ter um itinerário por encomenda.

Paradas ao longo do caminho
Casarão Tropeiro, Praça Padre António Pereira de Azevedo, 62, Silveiras;
telefone e fax (55-12) 3106-1310; www.casaraotropeiro.com. Esta velha hospedaria de meia quadra tem quartos para alugar por US$ 7 a noite (são muito rústicos para o nível americano), e oferece refeições completas por US$ 4 sem bebidas; nos fundos tem uma coleção de velhas selas tropeiras, ferramentas e acessórios; um pequeno canto é ocupado por diversos artistas locais trabalhando. Aberta diariamente, mas é melhor pedir os serviços antecipadamente.
Fazenda Santa Clara, velha fazenda na estrada de Conservatória a Santa Rita de Jacutinga; telefone (55-12) 3257-0025; aberta diariamente das 08:00 às 11:00 e das 14:00 às 17:00; excursões com guia - US$1,50. Tem loja de presentes.

   A version of this article appeared in print on March 23, 2003, on page 510 of the New York edition.

(Fonte: http://www.nytimes.com/2003/03/23/travel/the-hotel-that-hits-the-road.html?pagewanted=all)

Fone: (12) 3106-1103

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THE HOTEL THAT HITS THE ROAD
By TONY SMITH
Published: March 23, 2003

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Fazenda do Tropeiro S/N
Bairro do Ventura
CEP: 12690-000
Silveiras - SP
Fone: (12) 3106-1103